INFRAESTRUTURA SEM INVESTIMENTO ESTRANGEIRO: O BRASIL PODE CUSTEAR SEU CRESCIMENTO ECONÔMICO?

Por: Associada Erika Johnson, Pesquisadora do Conselho de Assuntos Hemisféricos

Traduzido por: Camila Sgrignoli Januario

06 de Dezembro de 2013 · em Brasil, COHA Pesquisa , Economia, Eleições

Enquanto o Brasil se prepara para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, o garoto-propaganda Sul-Americano está sob pressão para realizar reformas de infraestrutura imensas, um empreendimento ambicioso que vai exigir uma reversão da estagnação econômica que tem assolado o país desde que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou o cargo em 2011. O Crescimento no Brasil, sexta maior economia do mundo e que havia testemunhado prosperidade juntamente com aumento nos preços das exportações mais importantes do país, diminuiu de 7.5 por cento em 2010 para 2.9 por cento em 2011, e, finalmente, a um surpreendente 0.9 por cento em 2012, com apenas 2.5 por cento de crescimento previsto para este ano. [1] De acordo com um diplomata brasileiro, o governo da nação sul-americana reconhece que tem o potencial para se tornar uma nação altamente desenvolvida e está agora tomando iniciativas para atingir tal potencial. No entanto, terá que superar obstáculos significativos antes que possa ter sucesso. O Brasil continua a enfrentar obstáculos estruturais, incluindo uma rede totalmente inadequada de transporte, materiais elétricos não confiáveis e uma burocracia governamental impressionantemente inepta. Eleições, redução de impostos, agitação social, declínio da ajuda externa e legislação problemática ameaça o desenvolvimento a longo prazo que o Brasil precisa desesperadamente. A situação se torna ainda mais crítica com a aproximação rápida dos prazos de 2014 e 2016 para as reformas de infraestrutura sofisticadas exigidas pelas competições esportivas internacionais. A economia brasileira está chegando a um ponto crítico e ainda não está claro se a administração de Dilma Rousseff (2011-presente) terá sucesso em remover o rótulo de “país em desenvolvimento”; ou se, ao contrário, abrirá mão de desenvolvimento a longo prazo e atenderá apenas aos interesses dos eventos esportivos e internacionais.

O dilema do Brasil é caracterizado pela súbita necessidade de enormes gastos públicos em meio a uma diminuição na disponibilidade de fundos do governo. A produção e a exportação de petróleo são basicamente estatais e a recente descoberta de grandes jazidas no país fornecerá uma grande fonte de renda. Este domínio do setor público foi reforçado pela queda do chefão do setor privado de petróleo, a empresa OGX, do empresário Eike Batista, que pediu proteção contra falência em outubro, depois de perder bilhões de reais. Batista era o indivíduo mais rico do Brasil, com um império de quase 60 bilhões de dólares americanos. A OGX havia sido um grande alicerce para a criação de negócios de infraestrutura. [2] O fracasso deste gigante industrial é apenas mais uma adição à crescente lista de razões pelas quais o país está tornando-se um alvo atraente para o capital estrangeiro. De acordo com um artigo de Jeff Fick do Wall Street Journal, “a indústria do petróleo no Brasil […] tem um par de nuvens pairando sobre ela”. [3] E mais: o leilão das jazidas de petróleo que ocorreu no final de novembro não atraiu tanto interesse quanto se esperava. A Petrobras comprou a maioria e as únicas outras grandes empresas envolvidas vieram da Holanda e da França, sem a participação dos Estados Unidos, que atualmente é a fonte primária de investimentos estrangeiros no Brasil. Essse foi um declínio em comparação com leilão de 21 de Outubro, que teve aquisições chinesas e menor participação do setor público; ambos os leilões foram significativamente menos bem-sucedidos do que os leilões que ocorreram no início deste ano (2013), que envolveram essas grandes empresas privadas como a Chevron e a Exxon.

O custo dos preparativos para competições esportivas internacionais, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, é astronômico. Na preparação para os Jogos de 2012 em Londres, uma cidade cujo sistema de transporte público já era excelente, o Reino Unido gastou um total de 11 bilhões de libras (aproximadamente 18 bilhões de dólares americanos). 6,25 bilhões (cerca de 10 bilhões de dólares americanos) deste montante foi financiado diretamente pelo governo. [4] O Brasil pode esperar gastar muito mais. No entanto, este é um dinheiro que o governo do país simplesmente não pode dar-se ao luxo de gastar. Esses fundos são extremamente necessários em outros projetos se o país está finalmente decidido a melhorar o padrão de vida dos seus cidadãos e diminuir seus altos níveis de desigualdade (sendo 100 perfeitamente desigual, o Brasil é classificado com 51,9 no índice de Gini em 2012). A pergunta sobre de onde virão esses fundos permanece se o Brasil quiser evitar um aumento na dívida e um enfraquecimento da moeda. O Financial Times tentou responder a este dilema, afirmando que “fluxos de moeda estrangeira são necessários para financiar a dívida e o investimento necessário em um país que será palco para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos dois anos depois. ” [5] O aumento de impostos não é uma opção viável para o Brasil, um país já fortemente tributado. Ademais, haverá eleições este ano, o que significa que alterações na política fiscal são improváveis. Na verdade, o país recentemente tem tido alguns cortes nos impostos. Independentemente disso, o que o Brasil realmente precisa é usar seus recursos de modo mais eficiente. Apenas 1,5 por cento do PIB é gasto em infraestrutura, ao passo que as pensões – concedidas a uma porcentagem relativamente baixa da população neste jovem país – somam 70 por cento de salário dos beneficiários. Sistemas de infraestrutura em economias semelhantes são valorizados, aproximadamente, 4,5 vezes mais do que do Brasil. [6] Um artigo escrito por Tarique Smith, pesquisador do COHA, detalha os baixos retornos que os cidadãos brasileiros vêem dos seus impostos no que diz respeito à educação. [7] Caso o Brasil invista em sua própria infraestrutura de forma inteligente, sem dúvida começará a recuperar-se do atoleiro em que se encontra, o que por sua vez tornará sua economia um alvo muito mais atraente para o financiamento externo. O que resta para a administração Rousseff, e para próxima que poderá sucedê-la em 2014, é focar a sua atenção para dentro.

Além da falta de fundos disponíveis para a expansão fiscal, o Brasil está atualmente experimentando outros problemas econômicos. Standard & Poor (S & P) está considerando rebaixar a classificação de crédito do Brasil a partir de seu atual status de BBB para BBB- (o menor na S & P escala): “mais dinheiro está saindo do Brasil do que entrando, graças a uma economia mais lenta e medidas que reduziram impostos para aumentar o crescimento”. [8] Contudo, a empresa provavelmente vai esperar até depois das eleições presidenciais de 2014 para agir em suas projeções negativas, colocando o Brasil e Dilma Rousseff sob ainda mais pressão para revitalizar sua economia. O país está percebendo um declínio em investimentos graças à sua credibilidade duvidosa, onde os riscos parecem ofuscar o potencial de retorno. Os últimos três anos têm visto uma diminuição de investimento diretos da China de US$10,3 bilhões, de US$13,1 bilhões em 2010 para US$2,8 bilhões em 2013, conforme relatado pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CBBC). [9] O superávit comercial de US$1,74 bilhões que o Brasil declarou em novembro de 2013 não compensou o investimento perdido, embora seja um sinal de que o país mantém fortes laços econômicos internacionalmente, independentemente da diminuição de investimentos. [ 10 ]

A fim de abordar essa queda no investimento estrangeiro, Dilma visitou Wall Street em meados de Setembro, a fim de recrutar investidores para novos programas de infraestrutura do Brasil. A viagem não foi um sucesso retumbante, sendo que as empresas privadas mostraram “falta de interesse em concessões que estão sendo oferecidas a empresas privadas, que parecem relutantes em se comprometer com os projetos, devido a temores de intervenção governamental excessiva”. [11]

Na situação atual do Brasil o investimento estrangeiro é fundamental. O país precisa de uma reforma séria no transporte se deseja superar o fato de que para transportar um determinado produto para o mercado chega-se a gastar o dobro do valor que foi usado para produzi-lo. Os custos de transporte, em diversos casos, são responsáveis ​​por 25 por cento do valor total do produto. Dilma Rousseff precisa corrigir esses e muitos outros problemas se quiser manter a aprovação popular suficiente para ganhar a reeleição em 2014. Rousseff se reuniu com 15 ministros no final de outubro para trabalhar na implementação imediata de projetos sociais, a criação de uma rede rodoviária transnacional e melhorar os sistemas de saúde, solicitações de muitos protestos que ocorreram nos centros urbanos do Brasil em 2013. [12] O sucesso aqui pode ser o suficiente para conceder-lhe um segundo mandato, mas provavelmente não será suficiente para reverter o declínio econômico do Brasil.

A diminuição do investimento dos últimos anos da China é devido a “incertezas sobre políticas brasileiras”, uma situação que pode ser corrigida caso o Brasil se estabilize em um futuro próximo. [13] O país sul-americano ainda não está aproveitando seu vasto potencial. É rico em recursos naturais, capital humano e, por causa dos Jogos Olímpicos, tem a oportunidade de grande crescimento econômico (Londres viu um aumento de 15 bilhões de dólares americanos em negócios no ano seguinte em que foi anfitriã). [14] Porém, se o governo Dilma não revirar a economia do país, a China pode continuar a focar a África, onde o país asiático está rapidamente se tornando o principal investidor estrangeiro. O recebimento de investimento direto internacional no Brasil está ameaçado pela perda do impulso econômico que foi produzido pelo rápido crescimento de 2000 sob o então presidente Lula da Silva. Seguindo em frente, a atual administração terá que solidificar sua credibilidade internacional, ou descobrir como financiar seus programas sociais promissores e reformas de infraestrutura com uma quantidade mais limitada de investimento estrangeiro.

Erika Johnson, Pesquisadora Associada no Conselho de Assuntos Hemisféricos

Por favor, aceite este artigo como uma contribuição livre do COHA, mas se republicar, por favor cite autoria e atribuição institucional. Os direitos exclusivos podem ser negociados. Para notícias e análises sobre a América Latina, por favor, acesse: LatinNews.com e Rights Action.

Referências

[1] “The Fall of Eike Batista and Brazil’s Sagging Economy” The Financial Times.November 12, 2013. http://blogs.ft.com/the-world/2013/11/the-fall-of-eike-batista-and-brazils-sagging-economy/?;
http://www.ibge.gov.br/english/

[2] Haynes, Brad. “Factbox: The Dismantling of Eike Batista’s Industrial Empire”Reuters. October 31, 2013. http://www.reuters.com/article/2013/10/31/us-brazil-batista-ebx-idUSBRE99T1BV20131031

[3] Fick, Jeff. “Brazil Bid to Join Oil, Gas Boom Isn’t Big Draw” The Wall Street Journal.November 29, 2013.

[4] “London Olympics 2012: Where Does the Money Come From—And Where’s it Being Spent?” The Guardian. http://www.theguardian.com/sport/datablog/2012/jul/26/london-2012-olympics-money

[5] Leahy, Joe. “Foreign Investment: Brazil is Now ‘Ugly Mirror Image of Mexico’ in Beauty Parade” The Financial Times. April 17, 2013. http://www.ft.com/intl/cms/s/0/3c88db34-9223-11e2-851f-00144feabdc0.html?siteedition=intl#axzz2mLjuP35X

[6] “Has Brazil Blown It?” The Economist. September 28, 2013.  http://www.economist.com/news/leaders/21586833-stagnant-economy-bloated-state-and-mass-protests-mean-dilma-rousseff-must-change-course-has

[7] Smith, Tarique. “Belindia: Brazil and Education” Council on Hemispheric Affairs.November 25, 2013. http://www.coha.org/belindia-brazil-and-education/

[8] “Barclays Says Odds Increasing for Brazil Credit Downgrade” Forbes. November 1, 2013. http://www.forbes.com/sites/kenrapoza/2013/11/01/barclays-says-odds-increasing-for-brazil-credit-downgrade/

[9] Stauffer, Caroline and Winter, Brian. “Factbox: Chinese Investment in Brazil Has Tumbled Since 2010” Reuters. November 1, 2013.  http://www.reuters.com/article/2013/11/01/us-brazil-china-investment-facts-idUSBRE9A004C20131101

[10] Trading Economics. 2013. http://www.tradingeconomics.com/brazil/balance-of-trade

[11] Lopez, Luciana and Soto, Alonso. “Brazil’s Rousseff Woos Investors For Infrastructure Plan” Reuters. September 25, 2013.http://www.reuters.com/article/2013/09/25/brazil-economy-investors-idUSL2N0HL0YD20130925

[12] Parra-Bernal, Guillermo. “Rousseff Urges Cabinet to Speed Up Brazil Works Projects Before Elections” Reuters. November 2, 2013.http://www.reuters.com/article/2013/11/02/us-brazil-infrastructure-rousseff-idUSBRE9A109N20131102

[13] Ibid, CBBC via Reuters.

[14] Penny, Thomas. “London Olympics Report Says U.K. Economy Boosted”Bloomberg. July 19, 2013.  http://www.bloomberg.com/news/2013-07-18/london-olympics-report-says-u-k-economy-boosted.html

Anuncios

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s